Uma serpente ancestral que, segundo a tradição dos povos Fon, participou da formação da Terra e permanece sustentando o mundo sob as águas vai atravessar, simbolicamente, a Passarela do Anel Viário no Carnaval de 2027. É desse universo, nascido no antigo Daomé, atual Benin, na África Ocidental, que a Turma da Mangueira extrai a inspiração para construir seu próximo desfile.
As primeiras formas dessa história serão conhecidas nesta quarta-feira (30), a partir das 20h, quando a tradicional verde e rosa de São Luís apresenta, em sua sede, no calçadão do João Paulo, os protótipos das fantasias do enredo “Agô a Aydo Hwedo, o Ouroboros da Mitologia Ewe-Fon”, desenvolvido pelos carnavalescos Itamilson Lima e Cristiano Bara.
Mais do que antecipar o visual que chegará à Passarela do Samba Chico Coimbra, o lançamento permitirá compreender como uma narrativa ancestral africana será transformada em Carnaval para discutir uma questão contemporânea — até onde a humanidade pode interferir na natureza sem comprometer o equilíbrio que sustenta a própria vida.
*A SERPENTE QUE SUSTENTA O MUNDO:*
Na cosmologia que inspira o enredo, Aydo Hwedo não aparece apenas como uma serpente sagrada. A narrativa conta que ela acompanha a criação do mundo e seus movimentos estão associados à formação da própria paisagem, deixando marcas que dão origem a rios, vales e relevos.
Concluída essa formação, a enorme serpente passa a sustentar a Terra, enrolada sob o mundo. Sua existência representa a continuidade de uma engrenagem que precisa permanecer em equilíbrio para que a vida prossiga.
É nesse ponto que surge uma das imagens centrais escolhidas pela Mangueira. O Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, representa o ciclo que termina e recomeça continuamente.
Na leitura proposta para o desfile, enquanto esse círculo permanece inteiro, a natureza encontra equilíbrio. Quando ele é rompido, toda a estrutura passa a ser ameaçada.
A escola pretende transformar essa simbologia em uma reflexão ambiental. A ancestralidade deixa de ser apenas uma referência ao passado e passa a dialogar com o presente, colocando a ação humana, a exploração dos recursos naturais e a preservação do planeta dentro da narrativa carnavalesca.
*MITO GANHA COR:*
É justamente essa passagem do universo ancestral para a linguagem visual do samba que começará a ser revelada no lançamento. As fantasias apresentarão personagens e momentos da narrativa, antecipando as cores, formas e símbolos escolhidos para conduzir o público pela história.
A proposta é fazer com que um tema aparentemente complexo possa ser compreendido pela imagem. Aydo Hwedo, a circularidade do Ouroboros, a natureza e a ameaça ao equilíbrio serão traduzidos por fantasias, alegorias, música e movimento quando a escola chegar à avenida.
O projeto não começou agora. Há cerca de um ano, a Mangueira trabalha entre pesquisa, desenvolvimento do enredo e concepção artística. No ateliê da agremiação, na Ivar Saldanha, parte significativa do material já está pronta, enquanto outras peças seguem em execução.
PONTES DO CARNAVAL:
A construção do desfile também amplia uma experiência que a verde e rosa vem desenvolvendo desde o último Carnaval, aproximando profissionais maranhenses de artistas e trabalhadores com vivência nas grandes escolas do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Essa troca alcança diferentes etapas da produção, inclusive trabalhos relacionados às fantasias e aos carros alegóricos. A ideia é reunir técnicas e experiências trazidas de outros centros do samba com o conhecimento de quem constrói o Carnaval de São Luís.
A própria assinatura do enredo traduz essa ponte. De um lado está Itamilson Lima, com mais de três décadas dedicadas à cultura popular maranhense. Ele presidiu a Turma da Mangueira entre 2015 e 2023, comandou a Liesma por três mandatos e atualmente também participa da gestão dos projetos culturais desenvolvidos pela agremiação.
Do outro está Cristiano Bara, artista carioca com trajetória em escolas como Inocentes de Belford Roxo e Beija-Flor de Nilópolis, no Rio de Janeiro. Entre 2019 e 2023, também desenvolveu trabalhos para a Vila Maria, no Grupo Especial de São Paulo. Fora do país, sua experiência alcança projetos realizados na Europa, Ásia, África, Oceania e América do Sul.
*PASSARELA EM NOVA DATA:*
Todo esse trabalho deverá desembarcar no Anel Viário poucos dias depois do período oficial do Carnaval. Em 2027, a terça-feira de folia será em 9 de fevereiro e a expectativa em São Luís é de que o desfile de Passarela seja realizado entre 11 e 14 de fevereiro, repetindo a estratégia de reservar uma data própria para as escolas.
A mudança evita que os desfiles coincidam com os grandes shows promovidos pelos Executivos estadual e municipal durante os dias tradicionais da folia. O formato experimentado este ano abriu espaço para que o Carnaval de Passarela tenha uma programação própria, garantindo maior protagonismo às agremiações e melhores condições para o público acompanhar o espetáculo preparado para o Anel Viário.

RUMO AO CENTENÁRIO:
Enquanto projeta um Carnaval inspirado numa história ancestral, a Mangueira se aproxima de um marco de sua trajetória. Fundada em 25 de dezembro de 1928, a escola completará 98 anos no fim deste ano e entrará nos dois últimos anos antes do centenário, em 2028.
As raízes continuam fincadas no João Paulo, onde a agremiação mantém sua sede e desenvolve atividades culturais e sociais junto à comunidade. Ao mesmo tempo, os investimentos realizados nos últimos carnavais apontam para uma busca por novas experiências na construção artística dos desfiles.
A escola conta nesse processo com o apoio de seu patrono, o vereador Astro de Ogum, parceiro histórico da verde e rosa. O lançamento dos protótipos reunirá diretores de ala, ritmistas, baianas, colaboradores, artistas, representantes de blocos tradicionais, escolas de samba, outras manifestações culturais e integrantes da comunidade, além de uma apresentação especial.
Será o primeiro encontro do público com um projeto que pretende fazer uma viagem entre tempos e territórios distintos. Da ancestralidade africana às arquibancadas do Anel Viário, a Mangueira começa a dar forma a um Carnaval em que o mito de uma serpente responsável por sustentar o mundo se transforma em reflexão sobre o desafio de mantê-lo em equilíbrio.











